Perfil: Ana Passos, joalheira de bancada

| 26/08/2010 | 2 Comments
Ana Passos, joalheira

Ana Passos, joalheira

Hoje o Movebla visita o home office de uma profissional bem peculiar. O ofício de joalheira não é algo muito conhecido pelo povão, que tá acostumado com as bijuterias prontas. Então produtos como os feitos pela Ana Passos, joalheira de bancada (cria artesanalmente suas próprias jóias), são mais desejados e valiosos. Como ela mesma diz, “meu trabalho é materializar os desejos das pessoas”.

Essa baiana de Salvador foi criada no Rio de Janeiro e vive em São Paulo. Depois de uma carreira de anos na área financeira, passou a se dedicar integralmente à criação de jóias em 2008. Desenvolve coleções para lojas, dá aulas e palestras sobre história da joalheria, realiza consultoria de tendências e tem o blog Bijoux Bliss, que já tem 7 mil visitas mensais.

Descreva um típico dia de trabalho seu.

Eu escolhi esta profissão para não ter um dia típico. Tenho fazeres cotidianos: trabalho na bancada, fotografo o meu trabalho, pesquiso e escrevo no meu blog, falo/encontro/prospecto clientes e lojistas, leio, estudo, atualizo planilhas dos mais variados assuntos, ouço música, assisto televisão, visito exposições, vejo os amigos e namoro. Estas atividades predominam num dia e quase desaparecem em outro. Na maioria das vezes, o dia da semana nem importa. Só tenho cuidado de desaparecer quando a faxineira quer limpar o atelier e de agendar a terapia para uma hora que dê para passear na Livraria Cultura depois. Também concentro saídas para visitar clientes. De vez em quando, fujo para o Rio, onde mora minha família e tenho uma boa clientela. Nesses dias é festa: não tem bancada e às vezes nem me conecto.  É só encontrar pessoas interessantes, mostrar meu trabalho e saber que a praia e a floresta estão logo ali. O melhor de tudo é que, quando a vida é atravessada por uma ida ao veterinário, o conserto de um aspirador de pó ou as compras do mês, não tem problema algum. Basta você lembrar que não precisa fazer nada disso na hora do rush.

Se pudesse trabalhar em qualquer lugar no mundo (um local, não necessariamente uma empresa), onde seria e por que?

Creio que tele-transportaria minha casa/atelier para o Rio de Janeiro ou para o sul da França, em Nice. São duas cidades que me deixam com o astral elevadíssimo e têm uma luz maravilhosa. Lá experimento um ritmo de vida que tem tudo a ver com o meu ritmo interno.

Bancada do ateliê de Ana

Bancada do ateliê de Ana

Como você descreveria seu espaço de trabalho?

No meu ofício, preciso de uma bancada de trabalho e de um canto para computador. No início, achei que um quarto bastaria, mas já tomei conta do apartamento inteiro, menos do quarto de dormir. A sala virou um discreto showroom. Não fica nada aparente, mas coloquei um espelho e uma luminária mais potente na sala. O que era um buffet, hoje abriga os mostruários com as peças, as embalagens e os displays que uso quando tenho algum evento externo. Na cozinha, tenho uma cafeteirazinha, refrigerantes na geladeira e alguma coisa para oferecer aos clientes. A área de serviço foi invadida pelas escovas de limpeza e um ou outro equipamento. Os livros de joalheria estão expulsando todo o resto da estante paulatinamente. Criei uma mesa de still dentro de um armário do atelier. Tenho vários objetos por perto para lembrar o tempo todo das coisas realmente importantes da vida – presentes dados pela família e por amigos, além de lembranças de viagem que ocupam nichos na bancada e no atelier.

No meio disso tudo dá pra ser organizada?

Sou super organizada. O material é caro. O equipamento é caro e perigoso. Tudo tem um lugar certo. Gosto de arrumação e limpeza na bancada. Parece que ajuda o fluxo de idéias e os gestos também. O notebook vai para dentro da gaveta quando preciso me concentrar e a mesa onde ele fica, cabe debaixo da bancada. A cadeira tem que ser boa, porque seu corpo precisa de bons tratos. No meu trabalho, ela tem que ter um bom ajuste de altura porque, dependendo da atividade na bancada, ela tem que ficar mais alta ou mais baixa.

O escritório de Ana, próximo à bancada

O escritório de Ana, próximo à bancada e uma "companheira".

O que você mais gosta no seu espaço de trabalho?

A liberdade de fazer dele o que eu quiser, quando eu quiser. A luz natural, sem aquele cheiro podre de ar-condicionado. Adoro poder colocar música bem alta e dançar para alongar as costas. Amo ligar a televisão e ficar ouvindo um monte de programas bem trash em tudo quanto é língua. Tenho uma rede que penduro quando quero pensar, descansar, desenhar e ler. O netbook quebra um galho na hora da rede, porque é levinho. Minhas gatas foram ensinadas a não pisar em teclados, nem subir na bancada. Elas circulam o tempo inteiro e são super companheiras. Elas me lembram a hora de almoçar e a hora de dormir, quando por acaso eu me esqueço.

Trabalhar em casa é um sonho ou problema?

Na primeira semana em que trabalhei em casa, fiquei encantada com a luz. Poucas vezes eu tinha estado no meu apartamento durante o dia. Ele foi escolhido com o sonho de que um dia o plano B seria um plano A. Foi uma das melhores coisas que eu fiz na vida. Tenho luz natural o dia todo, sol da manhã e da tarde. E os barulhos que vem da rua? Na primeira quarta-feira, ouvi o barulho de um afiador, enchi uma sacola com coisas de cozinha, de manicure e de trabalho e desci. Fiquei meia hora conversando com o cara, sentada no meio-fio. Só não gosto das pamonhas de Piracicaba, nem dos ataques de telemarketing. E quando cai uma chuva horrorosa ou quando o rádio diz que há 200 km de engarrafamento na capital? Aí o meu espaço é o paraíso terrestre.

Qual a ferramenta de trabalho sem a qual não consegue viver?

Além de tudo o que está na minha bancada e que vai de alicates a maçarico? Meu notebook, meu netbook, minha máquina fotográfica e meu celular. Para ficar tranqüila, tenho em casa um HD externo com back up completo. Para ficar leve, tenho sempre comigo um pendrive bem potente, com os arquivos mais usados.

Como a tecnologia te ajuda no trabalho de artesã?

Comunicação, pesquisa e gestão. Meu site e meu blog me colocam em contato com o mundo. Do lado arte, fotografo tudo que faço e o que vejo de interessante quando saio da toca. Isso tudo está no computador e pode virar uma inspiração ou um post a qualquer momento. Pesquiso incessantemente na rede. Tenho uma lista de sites e blogs que visito diariamente. Do lado business, tenho um mailing que recebe uma vez por mês uma mensagem curta chamada “Notícias Telegráficas”. Preparo orçamentos e propostas de cursos ou palestras. Também sou a rainha das planilhas: tenho inventário de materiais, orçamentos de fornecedores, orçamentos para clientes, preços de atacado, preços de varejo, listagem de peças em lojas. Isso sem falar de controles financeiros. Tenho muito cuidado com o tempo que passo conectada, especialmente nas redes sociais, porque quando exageramos é sempre tempo roubado da bancada e da vida lá fora. Agora estou criando coragem para entrar no mundo da modelagem em 3D, que vai me dar mais rapidez e ousadia em alguns projetos – apenas alguns, mas isso é para 2011.

Se pudesse trocar de profissão por um dia, o que gostaria de ser?

Milionária excêntrica! Falei isto pela primeira vez quando tinha uns seis anos e virou piadinha familiar. Adoro o meu trabalho, mas quero somar a ele um retorno para a academia: dar aulas, escrever e fazer um doutorado. Sempre no universo dos adornos.

Tem algum hobby que te afasta do mundo do trabalho por um tempo, para relaxar?

A joalheria de bancada ficou espremida na minha vida como hobby durante oito anos. Agora que ela virou plano A, ainda nem me dei ao trabalho de arranjar um hobby. Será que eu preciso de um? Escrever meu blog e fotografar joias, minhas e dos amigos, são atividades suficientemente diferentes para eu não achar que continuo trabalhando quando faço um switch para uma delas.

Qual a dica essencial que você daria ao profissional que quer fazer o que você faz?

A joalheria é  um trabalho que mescla teoria e prática, bem à moda antiga. A maior parte do meu fazer foi desenvolvida na Idade Média e não mudou quase nada. Até o aprendizado ainda é na base das corporações de ofício, numa relação de mestre e aprendiz. Algumas ferramentas agora são elétricas e é só. Claro que estou deixando de fora o trabalho com modelagem em 3D e fundição. Há softwares e equipamentos que fazem qualquer coisa, mas deixo isto para a indústria. Meus clientes gostam de saber que alguém trabalhou artesanalmente em sua peça e que elas têm uma história de construção, que vai da conversa inicial até a embalagem.

Então o negócio é estudar muito, praticar as tais das 10 mil horas que se convencionou dizer que são o tempo necessário para alcançar a excelência. Muito importante também é passar um tempo no mundo corporativo. Eu exagerei e passei 12 anos. O que este mundo tem para oferecer de melhor são algumas lições sobre relacionamento, profissionalismo, estrutura, organização, estratégia, operação e comunicação. Lá a gente aprende coisas que, sem a convivência diária com esse universo, nem suspeitaria existirem. São justamente estes aspectos que o mercado vai admirar ao vê-los num profissional independente: saber lidar com clientes e fornecedores e entregar bons produtos e serviços de qualidade. No prazo, é claro.

Para terminar, sugiro um curso de malabarismo: você tem que criar, executar, comunicar, vender e cuidar da grana. Tudo ao mesmo tempo agora. E começa a rezar para São Elói, padroeiro dos ourives, porque sempre ajuda.

E a dica essencial para o profissional que quer trabalhar em casa?

Seja simples e criativo. Apanhei um bocado, ao contrário do que eu imaginava. Temos um milhão de idéias sobre como deve ser a vida e o trabalho. Joguem tudo fora e criem seu próprio formato. Se nós temos a opção de fazer do nosso jeito porque iríamos fazer do jeito dos outros? Já li um monte dessas revistas de auto-ajuda para executivos e empreendedores. Tem gente que acha que tem que se arrumar, criar horários, rotinas, espaços de trabalho com cara de escritório. Se eu quisesse, qualquer coisa parecida com isso, estaria com a carteira assinada. Acho que a única disciplina que a gente tem que ter envolve os prazos e a qualidade do que assumimos fazer. O resto é inventado todos os dias. Tem dias que eu me arrumo, tem dias que trabalho de pijama. Tem dias que fico o tempo todo na bancada, tem dias que penduro no telefone e no computador. Tem dias que eu não consigo fazer nada e vou para o mercado ou para o cinema ou deito na rede e assisto um filme. Ah, outra coisa importante: é preciso um compromisso com a vida. Quando a gente faz o que gosta tende a não parar nunca. Olho vivo para não trabalhar demais e se esquecer de dar umas voltas por aí. Quanto à grana, é óbvio: controle e reserve uma parte para os períodos das vacas magras.

Como as pessoas podem comprar suas jóias?

Trabalho sob encomenda e desenvolvo coleções. Sempre em prata ou ouro e com muitas gemas. Adoro renovar peças antigas, que já não são mais usadas. Realizo com o maior carinho uma peça imaginada por um cliente, desde que não fuja completamente ao meu estilo. Sempre tem alguma coisa nos meus mostruários para resolver um presente de última hora. No momento, estou fascinada com as possibilidades da internet. Depois de anos investindo no site e no blog, tenho clientes que nunca vi pessoalmente, mas com quem travei um contato muito interessante. No site é possível encontrar as lojas em que tenho peças à venda. Ainda não entrei no mundo do e-commerce porque quase tudo o que faço é peça única, mas não há nada que uma troca de emails ou telefonemas não resolva. Outra opção é marcar uma hora para conhecer o trabalho pessoalmente na minha casa/atelier. Tenho uma loja sobre rodinhas que foi um meio criado para atender aos clientes que não tem tempo de se deslocar e que me chamam em seus escritórios ou em suas residências.

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Category: Perfis

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Jornalista, 30 anos, trabalha com um netbook e smartphone onde for, além de fones de ouvido extra-reforçados.
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  • Anonymous

    Entrevista nota 10, a Aninha é ótima e merece muito ter o seu trabalho reconhecido. Até porque é uma simpatia de pessoa. Muito bom ver esse sonho virar realidade.

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